A arte de permancer casado
É provável que tenhamos nos aproximado do casamento com uma idéia limitada, sem saber bem em que negócio estávamos nos metendo.
• Preciso me casar, quero ficar livre dos meus pais. Quero ter a minha própria vida!
• Sou jovem e saudável, meus hormônios estão à ‘flor da pele’, se não me casar, ...!
• Preciso ter alguém que cuide de mim, que me ame, essa vida solitária é sem graça!..
Somos práticos, e procuramos razões que justifiquem nossas decisões. Não importam quais tenham sido os motivos iniciais que o levaram a assumir esse compromisso tão sério, quero lhe dizer que você entrou no melhor empreendimento da sua vida. Mesmo que não tenha vislumbrado plenamente essa idéia desde o começo, o casamento na vida do ser humano é a maior de todas as oportunidades de ser feliz.
Muitos, vendo alguns resultados práticos da vida a dois, reconhecem:
• Só depois que me casei consegui organizar minhas finanças.
• Vivendo a dois, a gente evita muitos exageros.
• No casamento um cuida do outro. E assim, a gente é mais feliz.
Porém, na prática, talvez você hoje esteja meio desanimado com os problemas decorrentes da vida conjugal... parece que são tantos conflitos... mil disputas, que nos “obrigam” a lançar mão de estratégias de guerra para “sobrevivermos”.
Mas o casamento é muito mais do que isso! Quero convidá-lo a contemplar o que acontece nos bastidores dessas cenas que, nem sempre lhe trazem tanta satisfação, alegria e contentamento, como você pretendia. É que, por trás das “instabilidades do mercado”, existe uma grande possibilidade de desfrutar o que há de melhor na vida. O mercado de ações diz que, quanto mais arriscado o negócio, mais lucrativo ele pode ser.
Então, vamos analisar mais profundamente nosso “negócio”?!
Propósito original do casamento
Deus existe em comunidade; Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo; e é desse círculo perfeito que procedem o poder Criador, a harmonia plena, o amor verdadeiro, o livre arbítrio, o companheirismo...
Ao estabelecer a família no contexto do primeiro casal, Deus formava um núcleo para a preservação e cultivo dessas características, o ambiente ideal para o exercício dos atributos da comunidade celestial: amor, harmonia, companheirismo, codependência. ... Vivendo dessa maneira, o homem fortaleceria a imagem de Deus, à qual fora criado, desenvolvendo-se e ampliando suas potencialidades. A natureza se manteria cercada da proteção e cuidados divinos, preservada dos possíveis desgastes do tempo. Enquanto a família humana estivesse em comunhão com o Altíssimo, o globo terrestre estava garantido contra os efeitos da lei da entropia, reinantes hoje.
Como tudo isso acabou?
A família estabelecida no Éden seria, portanto, o núcleo mais nobre e sagrado da presença de Deus, irradiando o amor divino.
Esta verdade fica mais evidente, ao se perceber que, quando se afastaram um do outro, Adão e Eva tornaram-se vulneráveis. Tendo caído em pecado, toda a natureza sofreu os impactos dessa perda: espinhos e cardos se formaram, os animais tornaram-se hostis uns aos outros. Lamentavelmente com o afastamento de Deus e do Seu propósito original para a família, toda a humanidade foi afetada. Afirma-se que “no murchar da flor e no cair da folha, os primeiros sinais da decadência, Adão e sua companheira choraram mais profundamente do que os homens hoje fazem pelos seus mortos.”
Estaria tudo perdido definitivamente?
As promessas de Deus foram apresentadas imediatamente. Após a queda, o homem despojado das características divinas estava agora subordinado ao mal, sendo então governado pelos impulsos carnais que brotavam de dentro de si. Deus então se pronuncia: ”Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher (família humana)” (Genesis 3:15).
É Deus quem vem em socorro do homem. Intervém na seqüência natural dos fatos “certamente morrerás” (Genesis 2:17) e oferece-lhe a oportunidade de voltar ao plano original. É Deus criando mecanismos que oportunizam à família caída o restabelecimento dos valores divinos no coração humano.
Assim como originalmente a comunhão de nossos primeiros pais com Deus, quando ainda no Éden, era o meio pelo qual fluíam as bênçãos divinas para todas as criaturas e a criação, a união conjugal e familiar, hoje, é a única forma de fazer convergir para o Planeta Terra os raios do Sol da Justiça que expulsam do coração humano as trevas do mal.
É no aprendizado da abnegação, do desprendimento, da paciência oportunizados pelo relacionamento conjugal e familiar, que as virtudes divinas desabrocharão em nossa vida. Unicamente em um convívio tão próximo e íntimo como o da família, onde fica evidente nossa vulnerabilidade e claramente expostas nossas fragilidades, é que podemos ser edificados por Deus e restaurados a Sua imagem e semelhança.
O casamento é, portanto, o meio eficaz usado por Deus, a fim de despertar o homem para a necessidade de ter em si os atributos do céu. É na administração das necessidades da família, na busca do bem-estar do outro, no respeito pela sua personalidade, na resolução dos conflitos,... que vemos falidas as habilidades humanas, que vemos fracassar nossos esforços de exercer domínio próprio, de respeitar o outro, de amar verdadeiramente... É na família que nos chocamos com a maldade de nossos pensamentos e a crueldade e obstinação de nossos atos. Nosso eu é dominador, controlador da vontade do outro, impostor de nosso querer...
E só então, ante a frustração e a infelicidade, ante a sensação de se estar só é que podemos despertar. É no contexto de um lar fracassado que reconhecemos a necessidade de mudanças radicais em nosso ser, uma transformação tal onde o altruísmo faça morrer nosso próprio “eu”, sacrifício para o qual não temos forças, mas de que precisamos a fim de permanecermos casados.
Só quando nos sentirmos fracassados em nossas tentativas de melhora, quando nos percebemos perdidos em nossos esforços é que estaremos abertos para reconhecer a disponibilidade desse Pai que ama Seus filhos. Deus arregimenta os exércitos dos céus para socorrer àqueles que clamam por Seu auxílio.
Agora salta diante de nossos olhos que, além de a união conjugal oferecer a segurança de companhia, de não se estar só nas caladas da noite, na velhice, de ter alguém que cuide, que seja solidário, expectativas muitas vezes frustradas... a vida a dois é o meio usado por Deus para levar-nos a identificar que os artifícios humanos usados com bom resultado em relacionamentos profissionais: domínio, tirar proveito da autoridade, persuasão, habilidades de argumentação, que aparentemente funcionam bem no trabalho e na vida social, são completamente ineficientes para sustentar um relacionamento profundo e verdadeiro como é o casamento.
O que nos resta então? O amor existe? Como permanecer casado?
A restauração
Os dividendos de alegria, compreensão, contentamento, solidariedade e companheirismo que nos levaram diante do altar na busca do amor verdadeiro, podem tornar-se realidade em nossa vida unicamente quando, esgotados em nossos esforços, decidimos buscar o amor em sua fonte genuína – Deus.
É na busca de um relacionamento pessoal e profundo com Deus (I João 4:7 e 8), deixando morrer nosso insaciável “eu” (Mateus 16:24), é que estaremos nascendo para as características divinas em nosso ser.
Só amor pode gerar amor. Só Deus presente em nosso coração, pode fazer brotar dentro de nós o amor, nos seus mais variados matizes: alegria, paz, paciência amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5:22 e 23 NVI). Só a comunhão íntima com o Criador, poderá tornar a nossa vida e nosso relacionamento conjugal um santuário de santificação (João 4:13 e 14), abrindo-nos, assim, as portas do céu. A eternidade se descortinará a todo aquele que, ante a impotência dos esforços humanos para restaurar a família, busca nAquele que a instituiu, os segredos da arte de permanecer casado.
Jaime Wolff
Capelão Hospitalar
Psicólogo da Família


Atualmente tem 0 comentários: